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Ganhar com scalping: realidade ou ilusão? Versão para impressão Enviar por E-mail
Artigos - Investimentos
Escrito por Melao   
Sábado, 25 Outubro 2014 23:25

 

 

Por Hindemburg Melão Jr.

 

altO termo "scalping" vem da prática de algumas tribos indígenas, entre as quais a dos Sioux, que cortavam o cabelo e parte do couro cabeludo de suas vítimas e usavam isso como troféu. Em investimentos, as estratégias com operações muito curtas, que fecham logo depois de conseguir pequeninos lucros, receberam o nome de "scalpers", pois cortam só o cabelinho. 

Ontem estava conversando com uma pessoa que está fazendo um curso sobre investimento em que os professores alegam estar tendo muito sucesso com scalping manual. O curso reúne 80 pessoas que pagaram R$ 4.000,00 cada, para aprender a fazer scalping.

Quem já tentou implementar alguma estratégia de scalping e testou sua estratégia, sabe que conseguir um scalper que funcione é coisa do outro mundo. Como disse certa vez o amigo Paulo Santoro, isso é equivalente a afirmar que seja possível voar balançando os braços. Considerando a alta densidade na atmosfera de Titã e a baixa gravidade na superfície daquele satélite, é questionável se lá seria possível voar batendo os braços, mas na Terra isso está fora de cogitação.

Contudo para quem nunca testou uma estratégia seguindo protocolos adequados, pode facilmente se iludir com isso. Então tentei explicar a ele que mesmo no caso de estratégias com operações longas automatizadas é muito difícil desenvolver algo que funcione, sendo que esta dificuldade aumenta muito para swing e mais ainda para scalping. Em mais de um artigo já expliquei isso com detalhes. Aqui farei um breve resumo, bastante didático:

Suponhamos que a pessoa possui uma estratégia que faz operações com objetivo de lucro de 25% ou stop de 25%. A corretagem é 0,1% na compra e 0,1% na venda. Emolumentos, custódia e liquidação totalizam outros 0,2%. Se o ativo tiver alta liquidez e o volume negociado for pequeno a ponto de não haver penetração no livro de ofertas, então o spread deve representar cerca de 0,05%. Se o volume for grande, com a penetração no livro de ofertas o spread efetivo será maior, por outro lado a corretagem será menor (se for corretagem fixa). 

No conjunto, os custos somados de cada operação ficam em torno de 0,5%. Como cada operação tem objetivo de lucro de 25%, ou aciona o stop em 25%, será necessário ter pelo menos 51% de acertos para ficar positiva, ou seja, a estratégia precisa identificar corretamente a direção do movimento até alcançar o ponto de lucro em 2% das vezes, e nos 98% restantes deixar por conta da sorte.

Nestes 2% em que a estratégia funciona, ganha-se inteiros os 2%, e nos 98% restantes, que ficam por conta da sorte, os resultados devem ser aleatórios, em que se espera que metade destes 98% sejam operações positivas e metade negativas, isto é, 49% positivas e 49% negativas.

Assim se tem 2% + 49% = 51% que é o total de acertos (somando os 2% acertos por eficiência da estratégia aos 49% de acertos casuais).

Se em cada acerto se ganha 25% - 0,5% de taxas e em cada erro se perde 25% + 0,5% de taxas, então em 1000 operações temos:

Total de lucro: 51% x 24,5% x 1.000 = 12.495

Total de perdas: 49% x 25,5% x 1.000 = 12.495

Em que o total de lucros fica igual ao total de perdas, portanto é o mínimo para não ficar negativo. Se houvesse 1,99% de acertos em vez de 2%, ficaria assim:

Total de lucro: 50,995% x 25% x 1.000 = 12.493,775

Total de perdas: 49,005% x 25,5% x 1.000 = 12.496,275

Portanto as perdas seriam um pouco maiores que os ganhos, então, nestas circunstâncias, o mínimo necessário de eficiência da estratégia para que o resultado final seja positivo é 2%.

Agora vamos supor que em vez de uma estratégia com operações longas, cada uma das quais visa lucro de 25% ou stop de 25%, se adotasse uma estratégia de scalping, em que cada operação tenha lucro de 1% ou stop de 1%. Neste caso, as taxas não mudam, e continuam sendo de 0,5%. Então a estratégia precisa ter eficiência de 50%, em vez de 2%!! Ou seja, precisaria ser 2400% mais eficiente! 

O total de acertos será definido por metade dos 50% restantes (isto é 25%), que dependem da sorte, somados aos 50% de eficiência, totalizando 75% de operações lucrativas. Como cada operação lucrativa resulta em 1% de lucro -0,5% de taxas e cada erro resulta em 1% de prejuízo + 0,5% de taxas, temos:

Total de lucro: 75% x 0,5% x 1.000 = 375  

Total de perdas: 25% x 1,5% x 1.000 = 375

Se houvesse menos que 50% de eficiência, ficaria negativo. Então a eficiência de uma estratégia de scalping precisa ser 25 vezes maior que a de uma estratégia que envolve operações mais longas para conseguir empatar os resultados e evitar ficar negativa. É uma diferença brutal: 50% contra 2%.

Ganhar de forma consistente com scalping exigiria que a soma de todas as taxas fosse 0 ou muito perto de zero, e mesmo assim ainda haveria o problema de que em microescala o tamanho dos ruídos é muito grande em comparação ao tamanho dos sinais. Em operações com objetivo de lucro de 25%, em que o tamanho dos ruídos é cerca de 1%, quase não se sente o efeito dos ruídos, de modo que os sinais podem emergir nitidamente e disparar sinais claros. Mas em operações em que o objetivo de lucro seja 1%, os ruídos acabam sendo tão grandes quanto os próprios sinais e eclipsando completamente os sinais, misturando-se e provocando confusões que impossibilitam distinguir os verdadeiros sinais dos ruídos espúrios, deixando as taxas de acertos muito perto de 50% (eficiência perto de 0).

Outro detalhe a se considerar é que no exemplo em que foram feitos os cálculos comparativos entre scalpers e sistemas de tendência, foi considerado que o objetivo de lucro era igual ao tamanho do stop loss. Mas geralmente os scalpers colocam um objetivo estreito de lucro e um stop longo. Se esta configuração for determinada por uma otimização bem conduzida, não há problema, porque os valores estão perto dos melhores possíveis e sabe-se, com base nos backtests, os resultados que se pode esperar. Mas quando os valores para stop loss, take profit e outros parâmetros são “chutados”, surge um novo problema, porque o uso de stops longos acaba mascando o verdadeiro nível de risco da estratégia. 

 

Se colocar o objetivo de lucro em 1% e o stop em 50%, haverá muitas operações lucrativas antes de ocorrer a primeira operação negativa, mas quando houver a primeira negativa, será desastrosa. A frequência com que ocorrem movimentos com determinada amplitude é quase inversamente proporcional à amplitude. Portanto usar stops longos apenas adia a descoberta de que a estratégia não funciona, e pior ainda quando não se usa stop, porque se opera com risco ilimitado. No gráfico a seguir, pode-se observar o efeito disso, em que a linha azul representa o balanço, enquanto a linha verde representa o equity. 

  
alt

 

Como a estratégia do gráfico acima não utiliza stop loss, todas as operações são positivas, até o momento em que se leva margin call e perde-se tudo de uma vez. A linha azul é a ilusão de ganhos consistentes com uma curva suave de crescimento, enquanto a linha verde indica o real estado de saúde da carteira. Numa estratégia que utilize stops curtos, a linha verde acompanha a linha azul o tempo todo, quase sobrepostas, como no caso do Saturno V, podendo ficar um pouco acima ou um pouco abaixo, em alguns momentos, mas nunca se distancia mais que o limite definido pelo stop loss, geralmente em torno de 7% no máximo. 

Na explicação ao telefone, não fui tão detalhado. Apenas citei o exemplo de uma estratégia com objetivo de lucro de 1% que precisaria de 75% de acertos para ficar positiva, enquanto uma estratégia para operações longas precisaria de apenas 51% de acertos para ficar positiva. Não tenho certeza se fui muito claro nas explicações, mas acho que não, porque em vez de ele se dar por satisfeito com a demonstração, ele disse que os professores apresentaram notas de corretagem, comprovando que estavam ganhando, e sugeriu que eu visitasse o site deles, talvez para que eu pudesse aprender alguma coisa com eles. :-) Cheguei a pensar que talvez a intenção dele fosse me vender o curso dos rapazes. :-) 

Quando chegou a este ponto, percebi que eu estava perdendo meu tempo, porque tudo que eu dizia estava entrando por um ouvido da pessoa e saindo pelo outro. Cheguei a pensar em não tocar mais no assunto e deixar que ele seguisse o caminho que quisesse, e obtivesse o resultado merecido. Por outro lado, eu achava que deveria fazer minha parte de expor o que me parece certo, e caberia a ele decidir o que fazer. Como o uso da Matemática e da Lógica não surtiu efeito, usei um argumento psicológico e sugeri que ele pedisse um extrato da CBLC aos professores, em vez de uma nota de corretagem. Em notas de corretagem a pessoa escolhe os momentos que teve lucro, mas num estrato completo estariam todas as operações realizadas, tanto as positivas quanto as negativas, de forma que seria fácil conferir se no total eles estavam obtendo lucros, como alegavam. Coloquei a seguinte questão: “por que eles teriam mostrado notas de corretagem, em vez de mostrar um extrato completo? Esse simples fato já denuncia que não havia algo bom a ser mostrado no extrato, porque se houvesse, teria sido uma evidencia muito mais forte do que mostrar notas de corretagem.”

Ficamos conversando mais alguns minutos e dei a ele algumas orientações (embora eu saiba que ele não vai seguir) para que ele testasse suas estratégias, antes de usá-las na prática. No final, creio que aprendi muito mais com ele do que ele comigo, embora ele tivesse tido a oportunidade de aprender muito mais comigo do que eu com ele. Aprendi um pouco mais sobre como funciona a mente da maioria das pessoas e, embora esse conhecimento seja inútil para o Mercado, conhecer melhor a mente das pessoas pode me servir para outras finalidades.

Depois comentei sobre isso com minha namorada, e ela disse que as pessoas geralmente são assim. Não vão entender a maioria dos argumentos, ficarão inseguras por não entender e preferirão comprar algo que não funcione, mas que por ser muito mais simples de entender, acabam se sentindo seguras. Vão fazer um curso qualquer, de preferência o mais barato por jornada de horas, e aplicar algumas semanas, meses ou anos neste curso, para depois perder mais algum dinheiro usando as técnicas do curso e descobrir, da forma mais dolorosa, que nada do que aprendeu tem qualquer utilidade. Como consolo, terão participado de atividades socializantes, com professores sorridentes e simpáticos. E continuarão a tentar mais alguns cursos, repetindo o ciclo várias vezes, até que, alguns anos depois, começarão a ver o Saturno em todas as mídias. Então o que era óbvio o tempo todo, se tornará mais óbvio ainda, mais do que se poderia resistir, mas a esta altura as licenças de menor valor estarão inacessíveis ou talvez extintas, assim como foram extintas as ofertas de participação societária, e quem deixou de entrar, provavelmente nunca terá outra oportunidade. Só quando chegar a este ponto é que a pessoa decidirá comprar uma licença, e pedirá para abrir exceção, pedirá desconto etc. Desde 2008, já deparei com esta situação várias e várias vezes, primeiro com o aumento dos valores de cotas, depois com a extinção das cotas, agora com aumentos nos valores de licenças. E cada vez que vejo essa história se repetindo, acho engraçado e ao mesmo tempo triste. Engraçado porque as pessoas de visão estreita nunca querem o que está ao seu alcance, não importa o quão valioso seja, mas basta que fique fora de seu alcance para que comecem a cobiçar. E triste porque não é possível atender às pessoas que jogam oportunidades no lixo, e depois querem que sejam criadas condições especiais para elas, além de reclamarem de falta de oportunidades, sendo que já demonstraram incapacidade de aproveitar as oportunidades no momento que estavam disponíveis. No final, tudo acaba seguindo um caminho justo, porque cada pessoa acaba obtendo resultados compatíveis para suas decisões. O sucesso depende muito mais de saber aproveitar com eficiência e rapidez as oportunidades que surgem do que da quantidade de oportunidades que surgem. 

 

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